sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

O casaco de Inverno

Antes de sair de casa espreitou pela janela para ver o tempo que fazia lá fora, como se tinha habituado a fazer desde que vivia sozinha. O marido tinha aquele mesmo ritual, era sempre o primeiro a levantar-se, muito cedo, ainda a noite resistia a retirar-se, olhava o céu escuro e ditava a sentença, como se fosse ele a definir a força dos astros, hoje vai estar sol, logo vai chover, tem cuidado com o frio. Nunca tinha realizado como aquele pequeno gesto marcava tanto espaço, lembrava-se dele todos os dias a dizer isso, virando um pouco a cara de lado para ela ouvir, enroscada no morno da cama, mas com os olhos ainda perscrutando o céu, como se ponderasse até ao último momento uma decisão importante.
Depois da morte do marido saiu vários dias com a roupa errada, ora muito quente, ora demasiado leve, faltava-lhe aquele cuidado tímido, percebia agora que era uma forma discreta dele se preocupar com ela, de velar por que se agasalhasse, talvez mesmo de a proteger ao longo do dia, enquanto cada um trabalhava sem tempo para se encontrarem antes de anoitecer de novo.
Ia estar frio, pensou, aquele cinza metálico não enganava, repetia as palavras dele, tal e qual, surgiam-lhe na memória com aquela nitidez e, no entanto, julgava que sempre as tinha ouvido ao longe, sem prestar atenção, tomava-as na altura mais como um monólogo do que como um conselho atento que lhe era dirigido. Mas as palavras dele voltavam e ela sorria com gratidão, como se lhe respondesse no diálogo secreto que só agora desvendava com clareza.
Abriu o armário para tirar o casaco de fazenda forrado a pele sintética, o mesmo que há mais de dez anos vestia no pino do Inverno. Olhou-o com desânimo, os ombros já esbatidos, aqui e ali um fio puxado, os botões mal presos nas linhas gastas. Sentiu frio na decrepitude do tecido. Quando o comprou foi por insistência do marido, na altura era um luxo e ele insistiu, dura-te vários anos e acaba por sair em conta se o estimares bem, vais ver que te faz jeito. E lembra-se também de como as colegas lhe disseram como ficava elegante, durante uns tempos esperava ansiosa que as manhãs se anunciassem frias só para se sentir tão bem no seu casaco novo. Mas depois os filhos precisaram de ajuda para fazerem as suas vidas, a seguir veio a doença do marido, o dinheiro a rarear, a casa a pedir remendos, e passou a poupar o casaco com a ideia de o fazer durar até poder comprar outro, logo que a saúde dele lhes desse folga para outras despesas. Havia de comprar outro, pensou desgostosa, a antecipar o olhar de desdém com que as colegas iam reparar na sua pobreza.
Punha-o agora nos ombros e ajustou a gola, para lhe devolver a forma antiga. Talvez com o cachecol de lã ficasse melhor, é isso, era assim que ele gostava, parece que são as mãos dele de novo a abrir o tecido, a alisá-lo e a compor o conjunto, curioso, também isso ela tinha esquecido, como ele era atencioso sem se fazer notar, ficava à espera que ela estivesse pronta, deitava-lhe um olhar aprovador e depois um beijo leve a roçar os lábios, até logo, chego às 8, pegava na pasta e saía, com o sobretudo pesado que sempre lhe conhecera.
Olhou-se ao espelho, o casaco agora abotoado a aconchegá-la muito junto, sentia-o de novo suave e quente, tão familiar como a presença atenta e carinhosa do marido, como se só agora se reconciliasse com a morte dele e com a solidão zangada em que se instalara com azedume.
Saiu para a rua a passo firme e, nessa manhã fria, esperou sem pressa pelo autocarro, sentindo-se abrigada de todas as intempéries ao abraçar-se no casaco velho com a ternura de quem retém um ente querido.

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Jorge faz corar Lacão!...

O Ministro Lacão tem dado sérias provas de possuir todas as inaptidões em matéria de língua portuguesa que o tornam um sério candidato à frequência de um curso acelerado de Novas Oportunidades na disciplina.
Mas o Governo é competitivo. A Ministra da Saúde , Helena Jorge, não quis ficar atrás e hoje brindou-nos com mais uma pérola, que deixa Lacão corado de vergonha!...Ora vejamos:
“Não conheço esse relatório da saúde oral. Lamento que isso seja posto, dado que há todo um estudo e todo um… hum… para se ter chegado àqueles valores de quem foi a proposta, houve obviamente um base naquilo que já era conhecimento e daquilo que foi feito um estudo sobre isso, sobre esse processo. É um processo que também pela primeira vez, este contrato que fizemos de saúde oral permitiu que chegámos a ter saúde oral na, principalmente, primeiro para grupos de risco, foram as grávidas e os idosos com complemento solidário de idoso e depois às crianças progressivamente. Portanto, pela primeira vez nós estamos com esta possibilidade de dar saúde oral a alguns portugueses e, portanto, progressivamente abrangendo mais população, penso que isso é muito positivo".

Pois é: Jorge & Lacão com gritante falta de saúde na expressão oral!...




Tiro-lhe o meu chapéu...

Juiz-Conselheiro Presidente do STJ na tomada de posse do cargo:

"A comunicação social portuguesa beneficia e, simultaneamente, comparticipa do centralismo de poderes, típico no nosso país. Daí que, salvo uma única excepção na imprensa escrita, tudo o resto se localiza no mesmo espaço metropolitano, com o mesmo conjunto de actores comentando as mesmas notícias e transmitindo para o resto do território opiniões nuclearmente formatadas"

E disse mais, sabendo bem o que estas suas palavras vão convocar, o que só abona pela coragem de quem as proferiu:

Aquilo que "era impensável há décadas é hoje um acontecimento banal: jornalistas transformados em comentadores vão-se revezando no tratamento repetitivo do assunto que estiver na ordem do dia, expulsando cada vez mais os especialistas da matéria".

O meu aplauso.

Grécia continua a resvalar para...e nós para a Regionalização?

1. As notícias sobre a crise financeira da Grécia continuam a encher as páginas dos jornais, hoje com destaque para a redução do rating de longo prazo atribuído à dívida pública grega pela Standard & Poor’s, de A- para BBB+, depois de idêntico “downgrade” ter sido anunciado na semana passada pela Fitch.
2. Em resposta a estes anúncios os mercados vão agravando as condições de financiamento da Grécia, sendo já anormalmente elevado o custo de cobertura do risco de “default” da dívida grega, que segundo notícias ontem divulgadas estaria ao nível da do Cazaquistão...
3. O novo Governo socialista grego, chefiado por um membro da família Papandreou como não podia deixar de ser, não consegue convencer os mercados da firmeza das suas intenções de reformar as finanças públicas gregas, apesar da sua retórica contra a corrupção e promessas de combate à evasão fiscal...
4. A Grécia terá que emitir qualquer coisa como € 55 mil milhões de dívida nova em 2010, para financiar o défice e para refinanciar dívida que se vai vencer ao longo do ano, mas pelas indicações que o mercado está dando esse programa não vai ser fácil de executar e, em qualquer, caso, irá resultar num aumento muito considerável dos encargos da dívida.
5. Segundo as notícias de hoje, a Grécia teve agora que recorrer a um empréstimo negociado com 5 bancos, de € 2 mil milhões, face à aparente dificuldade em colocar obrigações no mercado nesta altura.
6. Ao mesmo tempo, as principais empresas europeias fornecedoras de medicamentos apresentaram uma queixa em Bruxelas contra os enormes atrasos de pagamento dos fornecimentos por parte do Estado grego – segundo notícia em destaque na edição do F. Times de hoje, essas dívidas em atraso totalizariam quase € 7 mil milhões, verba que provavelmente vai agravar as necessidades de financiamento acima mencionadas.
7. Esta situação, se não for atacada com medidas concretas e não apenas com retórica, pode ir agravando as condições de financiamento da Grécia até à implosão...mas em contraponto, os Sindicatos gregos, sentindo o “cheiro” a austeridade, estão mobilizando as suas “tropas” para iniciarem uma série de greves gerais...
8. Por cá parece que vem aí finalmente a Regionalização, uma “bela” ideia não fosse o plano inclinado em que nos encontramos a caminho de uma crise financeira que, não tendo certamente e por ora as proporções da grega, desta se aproximará inexoravelmente se nada for feito para travar a evolução dos últimos anos...
9. Não se perceberá que um projecto como a Regionalização pode vir a ter um efeito relevante de rigidificação da despesa pública, criando expectativas de maiores apoios do Estado às Regiões e tornando cada vez mais difícil o saneamento da débil situação das finanças públicas?
10. Ou me engano muito ou estas opções de política, desde as grandes obras públicas à dita Regionalização, ainda nos vão trazer enormes dores de cabeça...

quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

O empurrão para o abismo

TGV sai do papel como "resposta à crise", afirmou o Ministro das Obras Públicas, António Mendonça.
Pior do que responder ao fogo, deitando-lhe gasolina. E mais uma prova de que o abismo chama o abismo.

Assim falou Lacão

«É importante que todos os portugueses compreendam que esse nosso empenhamento, do nosso lado, é para levar a sério e que consequentemente, se alguma coisa correr menos bem, não é pela nossa menos disponibilidade para darmos o nosso melhor».
Grande e eloquente, o substituto desse maior que foi, sem dúvida, Santos Silva. Mas talvez uma ajudinha da Ministra da Educação na utilização do português não fosse mal pensada...

terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Quanto mais inexistente...melhor!...

Como a economia não lhe interessa, Vieira da Silva, alegado Ministro da Economia, prefere falar de espionagem política.
Como a economia é coisa que o enfada, Vieira da Silva, dito Ministro da Economia, prefere falar de moções de confiança.
Como a economia é coisa que o enjoa, Vieira da Silva, virtual Ministro da Economia, prefere falar de regionalização.
Vieira da Silva fala de tudo, menos de economia. E, sendo tão falador, se não fala de política económica, certamente é porque não tem.
O que até é capaz de ser bom. Entre má política e nenhuma política, mais vale não haver nenhuma.
E porque tem sido inexistente na área, Vieira da Silva até está a ser um bom Ministro da Economia. E quanto mais inexistente, melhor.

ALERTA AMARELO


Tal como o ALERTA AMARELO da meterologia que nos grita que vem aí o frio apesar de no Inverno ser suposto haver muito frio, acompanhado da ordem pretoriana "AGASALHEM-SE, JÁ!" dada pelos prestimosos e sempre atentos guardiões da nossa saudinha, assim na vida pública vão aparecendo alguns sinais de risco, justificativos de idêntico aviso.

Vejam só:
  • Quem até há pouco dizia cobras e lagartos do parlamento e da classe política por atacado, apresenta-se agora a vergastar sem dó nem piedade aqueles que criticam estes políticos e este parlamento.
  • Quem passou os últimos anos a censurar o PSD, numa lógica de desgaste contínuo de imagem fosse qual fosse a direcção ou o líder, desembaínha agora a espada pronto a trucidar qualquer crítico, qualquer inimigo da unidade.
  • Quem se apresentava há uns tempos como o paladino da estabilidade governativa com um bem em tempo de crise, aparece agora a invectivar quem julga estar certo quando defende que uma solução de consensos essenciais que acorra à situação de dificuldade nacional, social e económica, que cada dia se agrava.
  • Quem se incomodava com as persistentes violações dos mais elementares direitos da personalidade, em especial contra a banalização dos ataques gratuitos à privacidade e ao direito ao bom nome ou a imagem, é agora o arauto da divulgação de tudo ou mais alguma coisa em nome do superior interesse do Estado.

Tamanha mudança faz recear o pior. Protejamo-nos!

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Casa onde não há pão...

Diz o povo que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. Depois de termos sido o país que a crise não atingiria e logo depois o primeiro a sair da recessão técnica, eis-nos a braços com o verdadeiro quebra cabeças de desenhar o próximo Orçamento de Estado e as políticas económicas que nos permitam não ir tão ao fundo como a Grécia – que já nos tinha ultrapassado no desempenho, lembram-se? – e que a Irlanda – grande estrela no firmamento dos sucessos. Pelo caminho, fomos avançando a passo de caracol, ora afectados pela crise global, ora distraídos com o endividamento, ora a recear o desastre no Dubai, ora a temer o que quer que seja. Há anos que falamos no combate ao défice e na necessidade de o fazer pelo lado da despesa. Convém lembrar que, nessa linha, os salários e pensões da função pública foram congelados em 2003 e 2004, pelo menos os de montante superior a mil euros, e a seguir juntou-se o congelamento das progressões, fatia significativa das despesas com pessoal, e assim ficou pelo menos dois anos. Além disso limitaram-se anos a fio – ao menos em teoria – as admissões na função pública, uma vez que o que se passou a pagar a consultores e a outsourcing não entra nessa factura, aumentaram-se os descontos para a aposentação e segurança social, os descontos para a ADSE, reduziram-se regalias e agravaram-se substancialmente as condições de reforma. Segundo ouvi dizer há pouco tempo, a função pública perdeu, nos últimos anos, cerca de 8% do poder de compra, reformaram-se dezenas de milhares de pessoas, com particular destaque para médicos, enfermeiros, juízes e professores, desanimados com as perspectivas de vida profissional.
A conclusão disto tudo parece ser a de que o episódico controlo do défice se fez à custa do aumento de receitas e não da redução da despesa e que agora o que é preciso é…reduzir os salários dos funcionários, seguindo o exemplo da Irlanda e talvez da Espanha! O que me surpreende é que, perante um défice de descalabro, se fale na mesma receita, em termos ainda mais drásticos, sem que se explique porque é que o que se fez até agora não resultou. É que uma coisa é reconhecer que pura e simplesmente o Estado está falido, não há dinheiro para pagar aos seus trabalhadores, outra é falar disso como se fosse uma grande decisão, muito pensada, como um factor que até agora não foi considerado e que será a causa de todos os nossos problemas. É que não basta comparar medidas em cada momento, convém ver o caminho que cada País cumpriu até chegar onde está e o que para uns são medidas de excepção para outros, como nós, é mais do mesmo.

Quando o senso é grande, o pobre desconfia...

Almeida Santos diz que "toda a gente precisa de bom senso, inclusive o Presidente da República" .
É uma verdade de há séculos, uma afirmação lapalissada, creio que Almeida Santos também aqui não descobriu a pólvora. Mas parece que sim, a avaliar pelas insistentes e contínuas notícias de ontem.
Almeida Santos encheu-se então de brio e bom senso e apelou ao bom senso. Muito bem!...
Porventura para compensar a total falta dele, quando considerava que a construção do novo aeroporto em Alcochete era perigosa, "já que há sempre a necessidade de uma ponte..."
Também aqui, quando o bom senso é grande, o pobre desconfia...
Pelo que, em tanto bom senso, desconfio de uma ferroada sem senso no Presidente da República...
Memória curta e falta de senso é o que dá!...

Tragédia Grega e o nosso TGV

1. As notícias da semana que passou foram dominadas pela evolução de uma Tragédia Grega em cenário de século XXI: a Grécia está colocada perante a alternativa de ver a sua dívida pública tornar-se investimento indesejável, criando enormes problemas ao financiamento futuro dos seus défices...ou de tomar medidas duríssimas de contenção da despesa pública que podem conduzir a uma situação social explosiva.
2. A dívida pública da Grécia tem sido fortemente penalizada pelos mercados financeiros nas últimas semanas, suportando nesta altura um custo que é superior em 2/3 ao da dívida alemã para prazos semelhantes – no prazo mais representativo, dos 10 anos, a dívida alemã paga 3,20% e a dívida grega 5,30%.
3. Por mais extraordinário que possa parecer, o custo de cobertura do risco de “default” da dívida da Grécia é, nesta altura, superior ao da cobertura de similar risco da dívida de países como a Hungria ou o Vietname...
4. As pressões para que o governo grego adopte medidas drásticas de redução das despesas públicas repetiram-se ao longo da semana, nomeadamente de responsáveis da União Europeia e do BCE, para além de diversas fontes internas.
5. Não se sabe ainda o que o governo grego vai ou não fazer, para já terá admitido reduzir o défice para cerca de 9% do PIB em 2010, dos quase 13% do corrente ano,mas ao que parece à custa de medidas de combate à evasão fiscal de resultado muito incerto...de cortes na despesa por enquanto nem se fala.
6. A situação é agravada pela dificuldade que qualquer governo grego tem em reduzir despesa pública sem enfrentar uma feroz oposição dos sectores instalados...e o actual governo (de maioria socialista) encontra-se numa posição especialmente incómoda pois, no poder há cerca de 2 meses, terá conduzido uma campanha eleitoral, de fresca memória, a prometer facilidades e maior despesa...
7. A redução do défice dos actuais 13% para 3% do PIB até 2013 faria apelo a medidas que, a serem aplicadas, colocariam a sociedade grega em polvorosa, quem sabe mesmo se em insurreição generalizada, sabendo-se como os gregos reagem violentamente a qualquer política de austeridade...a Grécia não é a Irlanda...
8. Enquanto esta Tragédia Grega se desenrola, nós por cá vamos continuando indiferentes a estes sinais dos mercados de que existe um limite para o endividamento, "mesmo" em moeda única.
9. Foi agora anunciado o arranque do TGV, projecto emblemático de uma política de assunção de enormes compromissos financeiros sem olhar à qualidade da despesa...este projecto é um daqueles com aptidão para agravar sempre a dívida, na fase de execução e também de exploração, pelos “cash-flows” negativos que deverá gerar durante um longo prazo e que exigirão mais dívida, sempre mais dívida...
10. Mas isso é feito em nome de um singular combate à crise económica, segundo o qual é preciso gastar para contrariar o abrandamento da actividade...
11. Nem reparamos que em cima da crise económica os países do “arco da dívida” enfrentam agora uma outra que consiste na realidade (caso da Grécia) ou iminência (casos de Portugal e Espanha) de um forte constrangimento financeiro que pode impor, de um momento para o outro, alterações drásticas de prioridades...
12. Ou seja, “combatemos” uma e apressamos a outra...

Os galifões


Os galifões da política esfalfam-se a querer mostrar que são gente.
Se um diz, o outro contradiz; se um afirma, o outro nega; e se um declara e o outro cala, logo os microfones desancam quem não reagiu nem falou. Por isso, todos berram, todos se insultam, todos se torturam, todos se ferem.
É uma luta de galos, em que cada um porfia por ter as lâminas mais afiadas. Não se lembram que, por norma, nenhum sai inteiro da arena.

Enfraquecidos na luta, acabam por morrer às mãos da sua gente. Mais depressa do que julgam.
A história acaba sempre por repetir-se.

Advocacia subordinada = advocacia de sujeição?

"Tenho sentido que olha para a lei com a isenção e imparcialidade de um juiz que a tem de aplicar. Contudo, é advogado do IEFP. É certo que o IEFP prossegue o interesse público, mas [você] prossegue outro objectivo, a saber: empregar os seus conhecimentos a favor do IEFP, numa óbvia perspectiva de parcialidade e de pouca isenção em abono do seu cliente. Tudo o que fizer ao contrário deste princípio prejudica a sua carreira". A edição de hoje do Público reproduz estas palavras, escritas por uma directora do IEFP e dirigidas a um jurista que, tanto quanto se percebe, apesar de pertencer aos seus quadros, exercia mandato judiciário em nome e representação deste organismo. As palavras transcritas são o fundamento invocado para a desqualificação do jurista, que foi acusado de não cumprir os objectivos da organização e consequentemente transferido para um Centro de Emprego.
Este acto e a sua motivação dizem tudo sobre a incompreensão geral do papel do advogado, sobretudo daquele que exerce a sua actividade em regime laboral de subordinação. Neste caso é gritante o desconhecimento pelo IEFP da Lei nº 15/2005, de 26 de Janeiro que aprovou o Estatuto da Ordem dos Advogados e que, no seu artigo 65º, afirma a vinculação do advogado aos princípios rectores da profissão, designadamente os de natureza deontológica que impedem a litigância contra lei expressa (com que a directora do IEFP pelos vistos não se conformou). Este preceito considera de resto nulas quaisquer orientações ou instruções da entidade empregadora que restrinjam a isenção e independência do advogado ou que violem os princípios deontológicos da profissão, entre eles aquele dever que o advogado em causa pelos vistos escrupulosamente cumpriu.
O episódio, porém, convoca uma importante reflexão. É possível compatibilizar hierarquia e autonomia técnica quando em causa está o Direito, mas sobretudo os direitos? Pode realisticamente conceber-se um modelo em que por um lado é inerente à relação de trabalho o dever de obediência a ordens e instruções por parte do subordinado; e por outro a independência que é inerente à advocacia?
No fundo este caso, para além de revelar uma inadmissível ignorância de princípios básicos por parte de dirigentes de serviços públicos (velhos tiques...), retoma a gasta questão de saber se faz sentido existirem advogados-empregados, sobretudo no Estado ou noutros níveis da administração.

O horror, a tragédia...

sábado, 12 de Dezembro de 2009

Somos dotados de inteligência (...)

O nosso Caro Bartolomeu que nos tem animado e estimulado com a sua presença assídua no 4R escreveu este singelo mas muito sábio pensamento que gostaria, agora é a minha vez, de comentar:

Ora meus amigos, acho que todos pensamos que se alguma coisa houver neste mundo que possamos ajudar a corrigir, não será certamente mordendo as orelhas uns aos outros,mas sim discutindo aberta e sériamente as questões e sobretudo voluntariando-nos (não sei se é assim que se escreve) para participar nos projectos.Somos dotados de inteligência para que possamos entender-nos e não o contrário.

Caro Bartolomeu
Um pouco por toda a parte continuaremos a encontrar pessoas muito mais apostadas no insulto e na calúnia, em particular se o puderem fazer no anonimato, porque, a bem dizer, não querem conversar e discutir o que quer que seja. Tornam-se prisioneiras de estados de alma tão negativos e prejudiciais como são o desprezo, a frustração ou a inveja.
A falta de tolerância que lhes é particular retira-lhes a tranquilidade necessária para escutarem os outros, respeitarem as suas posições e trazerem para o debate as suas opiniões defendendo-as e fazendo valer os seus pontos de vista.
A tolerância não é um sinal de fraqueza, é antes um sinal de inteligência que nos permite gozar da tranquilidade necessária ao bom convívio com os outros.
Aqui no 4R a tolerância é um valor apreciado e valorizado, capaz de fazer deste espaço um local saudável, com uma marca “cultural” em que a participação acontece de forma voluntária, plural, aberta e séria. E é assim que vamos continuar...

Como Portugal pode ser ainda mais bonito...

Mais um excelente exemplo de como se pode promover turisticamente Portugal. Segundo o JN a National Geographic Society vai ajudar a internacionalizar o Alto Douro Vinhateiro como destino turístico sustentável.
Na base da parceria que será assinada entre a National Geographic Society - a reputada organização mundial de natureza científica - e as entidades oficiais portuguesas está a preocupação de assegurar que o desafio turístico do Douro "se desenvolva mediante elevados padrões de qualidade e sustentabilidade".
A possibilidade de o Douro passar a constar dos roteiros turísticos sustentáveis recomendados pela revista Nacional Geographic é uma mais-valia importantíssima, não só pela chancela de qualidade que advém da exigência dos critérios seguidos na elegibilidade dos destinos turísticos seleccionados, mas também porque a revista vende milhões de exemplares à volta do mundo e em diversas línguas.
Recentemente a Nacional Geographic Society colocou o Douro em 7º lugar de entre 133 destinos turísticos sustentáveis em todo o mundo. Esta classificação é a prova do reconhecimento do valor da região vinhateira nas suas atracções e qualidades históricas e naturais, uma região que merece ser preservada e visitada.
Trata-se de um excelente exemplo do caminho que Portugal pode e deve seguir em matéria de desenvolvimento regional e sectorial e das preocupações que lhe devem estar subjacentes, designadamente qualidade e sustentabilidade.
É neste quadro de actuação - preservando e valorizando o nosso património - que podemos criar riqueza e bem-estar e que podemos ambicionar ser conhecidos e procurados através de meios de grande capacidade de divulgação e penetração à escala global, como é o caso da revista National Geographic.
Agrada-me a ideia de fecharmos parcerias com organismos internacionais de elevada reputação, pois para além de podermos beneficiar do know-how e apoio que têm para dar e partilhar ficamos sujeitos a compromissos e escrutínios externos exigentes.
Aqui fica, portanto, este meu registo de satisfação, a que acresce a minha rendição à beleza da Região do Douro...

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Receita fácil para a crise

"Numa pequena vila e estância na costa sul da França, chove, e nada de especial acontece.
A crise sente-se.
Toda a gente deve a toda a gente, carregada de dívidas.
Subitamente, um rico turista russo chega ao
foyer do pequeno hotel local. Pede um quarto e coloca uma nota de €100 sobre o balcão, pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspeccionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se lhe não agradar.
O dono do hotel pega na nota de €100 e corre ao fornecedor de carne a quem deve €100, o talhante pega no dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar €100 que devia há algum tempo, este por sua vez corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este por sua vez corre a entregar os €100 a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os €100 e corre ao hotel a quem devia €100 pela utilização casual de quartos à hora para atender clientes.
Neste momento o russo rico desce à recepção e informa o dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos €100. Recebe o dinheiro e sai.
Não houve neste movimento de dinheiro qualquer lucro ou valor acrescido.
Contudo, todos liquidaram as suas dividas e este elementos da pequena vila costeira encaram agora optimisticamente o futuro".
.
Recebido por e-mail. Digam de sua justiça os ilustres economistas. E para antecipar resposta a alguns comentarios expectáveis, não, não estou a comparar Portugal a um "desses" hotéis porque nós por cá somos gente de "bons costumes"...

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

O Magalhães, as operadoras de telecomunicações e o apoio social escolar

À primeira vista não passaria pela cabeça de ninguém relacionar o computador Magalhães com Acção Social Escolar (ASE) e esta com um acerto de contas feito pelo governo anterior com as operadoras, no âmbito da Fundação para as Comunicações Móveis (FCM). Mas nos tempos que correm não existem improváveis. A edição on line da revista Visão revela que, pouco tempo antes das eleições legislativas, o ex-ministro Mário Lino terá procedido a um acerto de contas com as operadoras móveis à custa de uma transferência de 180 milhões de euros provindos da ASE.
Salta à vista que há algo que não bate certo na notícia. Se é verdade que a Mário Lino cabia a tutela da FCM, a gestão das verbas alocadas à ASE era da responsabilidade da ministra da educação e do secretário de estado adjunto do ME em que estaria delegada esta competência.
Parece, aliás, ter passado despercebido um despacho do referido secretário de estado, publicado na II S. do Diário da República de 17 de Agosto de 2009 (Despacho nº 18987/2009), que regulamenta as comparticipações do ministério nos encargos escolares dos alunos mais carenciados. No seu artigo 12º estabelece-se o "direito a apoio especial no quadro do programa de acesso aos computadores pessoais e à banda larga os alunos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário". Pelos vistos ninguém na altura reparou na porta que por aqui se escancarou, apostando eu que a defesa do governo vai ser feita exactamente por aí. O tal "acerto de contas" mais não é do que a expressão desta extensão do apoio social, prevista no despacho.
Seja como for, as informações agora divulgadas são politicamente relevantes porque há que dar resposta pelo menos as estas duas questões:
1ª - É legítimo ao governo alocar os recursos da ASE (que calculo que sejam parcos perante tanta necessidade!) a procedimentos de aquisição de computadores ou para facilitar o acesso à banda larga, ainda que se considere (e eu estou entre os que considera assim) ser muito importante a democratização das novas tecnologias no âmbito do processo educativo?
2ª - É admíssivel que o "acerto de contas" com as operadoras de telecomunicações, no quadro de uma Fundação que - imagino - foi instituida com o propósito de captar meios de apoio ao acesso universal às tecnologias de informação, se faça não com recursos das próprias operadoras (primeiras beneficiárias do alargamento do mercado assim conseguido)? Ou então que não se faça com meios do Estado destinados ao investimento nesta área - necessariamente a cargo do ministério competente -, mas à custa de dinheiros que o Parlamento destinou ao apoio social dos alunos quando aprovou o OE para 2009?

Aquecimento global

Será isto consequência do efeito de estucha, perdão, de estufa?

Têm muito que aprender!...


Dois polícias franceses, ouvi hoje, assaltaram um estabelecimento e meteram num saco vários artigos. Na sua defesa, alegaram como atenuante que não estavam de serviço.
Ao contrário de Portugal, onde os maiores desvios são geralmente praticados por quem está em serviço. Oficial. E isso constitui o maior atenuante. E, no final, comprovação plena da inocência.

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

A dosagem da crueldade...

Não tem desculpa, não tem perdão, não há compreensão nem tolerância para a barbaridade cometida. Os factos remontam a 1991. Foi condenado à pena capital. Esteve muitos anos no corredor da morte à espera da execução da sentença que vai finalmente acontecer esta madrugada.
A dosagem da injecção letal é inovadora e vai ser pela primeira vez testada num ser humano. Espera-se com esta “inovação” que o procedimento seja menos demorado e a morte seja mais rápida. Não sei se esperam também retirar alguma carga de crueldade à pena de morte. Se pensam, não creio que o consigam.
Inovar e investigar novos métodos para matar condenados à pena capital é macabro. Palavra de honra que tudo isto me horroriza e perturba. Confesso que fico, possivelmente, um pouco ofuscada e sem a clareza de espírito para, porventura, encontrar alguma coisa de positivo no meio destas “coragem científica" e "justa justiça".
Chego a questionar-me se o método utilizado pelos chineses não é, afinal, menos desumano. Afinal, basta um tiro na nuca. Se tem que ser…

Crónicas de tempos que não voltam: Um par de botas III

Voltando ao tema.
Passei mais uma vez pela oficina do Sr. Manuel para conversar e ver como ia a confecção dos sapatos. Mostrou-mos na forma, já um deles estava com a borracha cosida. Parecem-me muito grandes, disse eu. Não, tem que ser assim, se não na Páscoa já não servem…
E a conversa derivou logo para outro assunto.
O Sr. Manuel trazia invariavelmente consigo um vistoso emblema, pequenino e lindo, vistoso, de um azul profundo, matizado com dois escudos da bandeira, e encimado por uma coroa amarela e um dragão esverdeado. Oh Sr. Manuel, por que é que anda sempre com esse emblema na camisola? Oh Toninho, porque é o emblema do F. C. do Porto, e eu sou do Porto. Mas o Porto ganha pouco, a minha mãe, que é de Lisboa, diz que são tripeiros... E o Sr. Manuel explicou-me essa coisa dos tripeiros e o acto patriótico que levou à alcunha. Mas dizem que o Sporting e o Benfica ganham mais…Podem ganhar mais, mas foi o FCPorto que ganhou o primeiro Campeonato Nacional. E é o que tem o emblema mais bonito… E o que joga melhor!...
E mostrou-me O Século, que relatava o Torneio Quadrangular de Lisboa, que opunha os 3 grandes da capital ao FCPorto e onde dizia, em letras grandes: o Porto, apesar de último, enebriou Lisboa com o perfume do seu futebol. Que é que isso quer dizer? Que é a equipa que sabe jogar melhor, respondeu o Sr. Manuel…E desenfiou o emblema da camisola e deu-mo. Oh Sr. Manuel!... Se não quiser ser do Porto devolva-mo depois…
Passados dias, a minha mãe apareceu em casa com o embrulho dos sapatos. Chamou-me, para os calçar. Apesar de feitos por medida, eram enormes!... Os pés balançavam dentro deles, mesmo com dois pares de meias de lã e palmilhas de cortiça…
Oh Manuel, enganaste-te nos sapatos, são muito grandes para o miúdo!…
Pois foi, já desconfiava, enganei-me na forma. Mas não faz mal…Fica com eles e a D. Maria paga-mos quando lhe servirem…Daqui a um ano já estão bons. O remédio é fazer-lhe outros...
E lá pus o pé outra vez no papel para as medidas…
Não sei já se demoraram muito ou pouco. Mas o que sei é que as medidas já foram tomadas com o emblema do FCPorto ao peito. Foi esse o dia glorioso em que me tornei indefectível adepto do grande FCP, o clube com emblema mais bonito, o que tinha ganho o primeiro campeonato, e o que jogava melhor futebol!...
Imaginem agora a desgraça que seria para mim se o Benfica ou o Sporting tivessem emblemas bonitos e jogassem bom futebol? Boa sorte, ter um amigo como o Sr. Manuel!...

Hipocrisia global

Qual a pegada ecológica impressa pela Cimeira de Copenhaga? Não sabe? O Daily Telegraph dá uma ajudinha...

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

A diferença que fazem as diferenças...

video

Este vídeo é simplesmente sensacional (a tradução e a qualidade da imagem não são grande coisa). Foi-me enviado pelo nosso amigo Dr. Pinho Cardão.
A brincar se dizem as verdades…
São cinco minutos um bocadinho demorados, mas que valem a pena. À medida que a exibição vai acontecendo vamos confirmando as diferenças e a graça que trazem à vida. Vamos lembrando que “elas” e “eles” são realmente diferentes e vamos recordando episódios do nosso quotidiano.
A vida seria uma sensaboria se as mulheres e os homens fossem iguais. Que desperdício seria a igualdade. O que os torna fascinantes, elas e eles, são as suas características especiais e inigualáveis. Ainda bem porque senão a vida não tinha mesmo graça. Não mudaria uma vírgula a esta inesgotável diversidade.
Tiremos partido das diferenças porque é nesta riqueza que está a complementaridade…

O incentivo governamental ao recurso ao salário mínimo

O 1º Ministro anunciou o aumento do salário mínimo de 450 para 475 euros. Não tenho nada a objectar.
Mas, ao mesmo tempo, o 1º Ministro anunciou que as empresas que tenham trabalhadores com salário mínimo vão beneficiar da redução de um ponto percentual na taxa social única: as contribuições passam de 23,75% sobre a remuneração para 22,75%.
Ou me engano muito, ou a lei vai ter um efeito altamente perverso, como acontece a todas as leis demagógicas ou feitas sobre o joelho para mostrar serviço.
Claro que nenhuma empresa com remunerações pouco acima do ordenado mínimo vai passar a admitir algum empregado naquelas condições e vai admiti-lo com o ordenado mínimo. Por exemplo, se admitir um colaborador com a remuneração de 480 euros por mês, superior ao ordenado mínimo, vai ter encargos de 594 euros, ao passo que se pagar o ordenado mínimo vai ter encargos apenas de 583,1 euros. A poupança é de 10,9 euros (5 euros referentes ao ordenado base e 5,9 euros referentes a 1% da taxa social única).
É defraudado o trabalhador, que desconta menos para a segurança social, e é “defraudado” o Estado, que assim passa a “subsidiar” a empresa.
No limite, o empresário até pode dividir o resultado da operação, dando por fora os 5 euros ao empregado, mas ganhando, ele próprio, a diferença de 5,9 euros.
E muito me admiraria se muitas empresas, com acordo prévio dos seus trabalhadores, não vierem a pagar-lhes em espécie o que lhe retiram para baixar a remuneração oficial para o ordenado mínimo.

Atingem-se valores consideráveis. Por exemplo, uma empresa de limpezas, com 50 empregados a ganhar 500 euros, pouparia, por empregado, 35,69 euros e 499,6 euros, por mês e por ano, respectivamente. O que daria um valor de cerca de 25.000 euros por ano, considerando a totalidade dos efectivos. Se mantivesse, por pagamentos laterais, a remuneração nominal de 500 euros, mesmo assim embolsaria cerca de 7500 euros.
Contra tudo o que o Governo vem dizendo, trata-se de uma perfeita forma de incentivo ao incremento do salário mínimo. Governar assim é mesmo brincar com o pagode!...
Nota: Conforme venho defendendo, tudo o que seja diminuir impostos e contribuições para o Estado é bom para a economia. Mas então que se assuma e se faça de forma geral, e não selectiva e demagógica.

Honestidade

No início dos anos setenta psicólogos fizeram uma interessante experiência. Era a altura do Halloween e as crianças ao entrarem num determinado espaço podiam, de acordo com a vontade do proprietário, retirar um doce dos diversos boiões. Apenas um. Entretanto, era solicitado o nome e a residência das crianças. Não de todas as que entravam, apenas de algumas. Volta e não volta o proprietário saía para ir até à cozinha. Nessas alturas, muitos miúdos, que não tinham sido interpelados em matéria de nome e de residência, não tiravam um doce, mas chegavam a esvaziar os boiões! Os autores concluíram que o anonimato originava uma sensação de segurança quanto às repercussões dos seus atos, um processo denominado de "desindividuação". No fundo, o que está presente neste fenómeno é basicamente uma questão de honestidade, ou melhor, a falta dela.A vida ofertou-me muitas situações de honestidade maravilhosa e outras muito problemáticas em que a má-fé e a desonestidade foram marcas que acabaram por deixar cicatrizes nas almas e nas carteiras. As primeiras são as piores, porque muito dificilmente as esquecemos. Por vezes chegamos a afirmar que a vida ensina-nos muito e que estamos sempre a aprender. Uma ova. Quem é honesto por natureza cai vezes sem conta, tantos são os vigaristas que proliferam por aí como cogumelos em ano de chuva. Mas sendo tão numerosos será que há razões para esse comportamento? Não sei, mas presumo que os psicólogos evolutivos já deverão ter abordado a matéria e não me admiraria nada que viessem a encontrar vantagens seletivas. Ou seja, os batoteiros são capazes de melhor sobrevivência. Até nos outros animais é possível detetar batoteiros de toda a ordem e espécie.Recentemente, um estudo muito bem conduzido permitiu concluir que a honestidade é um processo automático mas apenas em certas pessoas. Os cientistas, através da ressonância magnética nuclear funcional, “viram” como certas zonas do cérebro se comportam em diferentes indivíduos nas mesmas circunstâncias, à exceção de permitir a alguns a tal "desindividuação", a batotice. Nalgumas pessoas que poderiam ter feito batota, mas não fizeram, não houve qualquer atividade cerebral. O grupo dos desonestos que persistiam na mentira e o grupo de “desonestos” que faziam esforço para não o serem apresentavam atividades extra muito marcadas. Sendo assim, é possível classificar os seres humanos em três grandes grupos: os basicamente honestos, os estruturalmente desonestos e os desonestos que querem deixar de o serem. Estes comportamentos fortalecem a ideia de que a proporção de “batoteiros” e de “trouxas” é uma constante, traduzindo uma qualquer reminiscência evolutiva. Ora, nesta perspetiva, não é possível evitar encontros imediatos do primeiro grau ao virar de qualquer esquina com um ou uma vigarista. Pelo menos é confortante verificar que alguns desonestos de base querem mudar de campo. Resta saber se é significativo e se conseguirão vingar no novo estado. A honestidade estrutural de alguns seres humanos é por vezes objeto de admiração e de notícias na comunicação social. Há dias li a notícia de uma senhora humilde (gosto desta expressão que parece reforçar a profundidade da honestidade) que encontrou uma pasta com muitos milhares de euros e que não ficou com eles. Agora, um outro senhor, para não variar, também, humilde, encontrou uma carteira com mil e poucos euros e foi entregá-la à polícia, prescindindo da parte que lhe caberia por lei. Todos temos conhecimento de casos semelhantes ou até pertencemos a este grupo, os estruturalmente honestos.Como a ciência está constantemente a contribuir para melhorar o conhecimento deste e de outros comportamentos talvez não fosse má ideia submeter certas pessoas que andam por aí, como quem diz, andam lá por cima, a tratar-nos como trouxas e a alambazarem-se à grande e à francesa, pavoneando a sua estrutural e perigosa desonestidade, a alguns exames sofisticados. Já estou a ver, um dia, algumas pessoas a porem a cabeça, não num cepo, porque isso é muito perigoso, já que podiam ficar sem ela, mas num “aparelhómetro” qualquer capaz de verificar se são ou estruturalmente honestos. Pelo que tenho andado a ver nestes últimos tempos bem falta nos faz...

Crónicas de tempos que não voltam: Um par de botas II

Continuando. O Sr. Manuel Sapateiro nunca começava e acabava um par de sapatos, botas ou chinelos. Tinha sempre uma boa quantidade de artigos em curso de fabrico. À distância, não posso deixar de concluir que se tratava de uma estratégia de marketing, para impressionar os clientes e desculpar atrasos com base no muito trabalho. Mas, para compreender devidamente o processo produtivo do Sr. Manuel, tenho que fazer outro parêntesis, para revelar traços essenciais da sua personalidade. Para além da confecção de sapatos, a que se dedicava por necessidade, o Sr. Manuel, um auto-didata, dedicava-se por gosto à leitura, e desenvolvia a actividade complementar de ser o correspondente na terra não só dos jornais regionais, mas do grande jornal O Século, entretanto desaparecido. Factos só por si capazes de lhe dar uma importância acrescida à que derivava de calçar o pessoal segundo os últimos catálogos da moda. Porque o Sr. Manuel, para além de criar, também trabalhava por catálogo.
Na sua função de correspondente dos jornais locais, não lhe escapava nascimento, baptizado, morte, exéquias, simples ou com ofícios, ou missa cantada com procissão solene e nome do pregador. Assim como os nomes dos mordomos. E a descrição científica da toponímica local, história do orago da freguesia ou as particularidades geológicas ou “monumentais” de qualquer lugar. E fazia investigação sobre o "castelo dos mouros", um penedo onde era suposto estar escondido um enorme tesouro. Quando algum autóctone chegava de Lisboa, ou do Porto ou de África e desconhecia qualquer acontecimento, desculpava-se de imediato o interlocutor: pois é, o Manuel não pôs no jornal… Mas também havia a crítica: não sabias? Mas o Manuel pôs isso no jornal…
Então, quando compreendi estas conversas, comecei a imaginar como importante era o Sr. Manuel Sapateiro, pois era ele que punha ou não punha as pessoas nos jornais. E se já muito o estimava por razões que depois revelarei, a consideração por ele tornou-se ainda maior. Por esse mesmo facto, e também porque era filho da senhora professora, o Sr. Manuel, apesar de não ter atingido os dez anos, via em mim um interlocutor à altura. E contava-me as verdadeiras agruras que passava com o correspondente do jornal rival, Diário de Notícias. É que para O Século não podia mandar notícias de nascimentos e procissões, mas tinha que seleccionar outro tipo de acontecimentos, como desastres, ou fotografias de culturas insólitas, género fenómenos do Entroncamento, que não estavam sempre ao colher da mão. A coisa era séria, pois que, se o DN publicasse uma notícia que não tivesse enviado a O Século, logo havia a reprimenda e a ameaça de substituição do correspondente. O que eu suspeitava como trágico, ao vê-lo levantar a cabeça, ao mesmo tempo que deixava cair a sovela: cortavam-me o jornal…
Bom, a confecção dos sapatos ficará para próximo capítulo.

Acabamentos de luxo

Este fim de semana fui dar uma espreitadela a uns apartamentos que estão a fazer aqui perto, um bairro todo novinho e que parece boa construção, embora só os prédios da frente é que tenham uma bela vista sobre o rio, os outros dão para o vizinho da frente.
O vendedor mostrou-nos um andar muito moderno, bem dividido e amplo e desfiava, umas atrás das outras, as maravilhas do conforto e da qualidade dos acabamentos. Climatização de Verão e de Inverno, com um processo especial de poupança de energia, vidros duplos para manter a temperatura, estores eléctricos (domótica, dizia ele, uma gestão inteligente dos equipamentos) e lâmpadas xpto. Além disso, a banheira tinha jacuzzi, o duche tinha massagem, o frigorífico, gigantesco, era “à americana”, de um lado congelador e arca, do outro só frigorífico, máquinas para todos os gostos, incluindo – grande atracção, que ele guardou para o fim para ver o efeito – um écran de plasma incrustado entre o forno e o micro ondas, certamente para ver uma novela em alta definição enquanto se tira o pirex do forno.
Admirei, como me competia, todas aquelas maravilhas, até que chegámos às varandas, lindíssimas, com os parapeitos em vidro, e estava a pensar com os meus botões no trabalhão que deve dar ter aqueles vidros todos limpinhos do pó e da chuva quando vejo a habitante da frente a abrir um estendal portátil para estender a roupa.
- Então não há estendal? Onde é que se seca a roupa?– perguntei, receosa de me ter escapado algum detalhe na apresentação.
- Não, estes prédios modernos não têm estendal, a máquina de lavar é também de secar, isso de pôr a roupa a secar ao sol já não se usa – disse-me o vendedor, a perceber que eu não era cliente à altura.
Não sei se o prédio tem painel solar, mas era uma boa pergunta...
O prédio tem ainda umas plantas intercaladas entre cada andar, que lhe dão muita graça mas que o meu sentido prático levou a inquirir como seria possível chegar lá para as cortar e regar, uma vez que as varandas fecham de cada lado do “jardim suspenso”. Aí o homem impacientou-se. – Isso não sei, nós colocamos lá no fim da construção e depois é com o condomínio, realmente não estou a ver como é que se chega lá por dentro das casas…
Vou continuar a ver casas, pelo menos volto à minha com uma redobrada sensação de conforto, mesmo sem plasma na cozinha (detesto televisões na cozinha), nem energia inteligente, tenho a roupa ao sol na marquise e rego as minhas plantas sem correr o risco de cair da varanda…

domingo, 6 de Dezembro de 2009

Crónicas de tempos que não voltam: Um par de botas I

As botas da Suzana lembraram-me uma história de outras botas, era eu miúdo. Mas história de botas personalizadas, feitas a rigor e à medida. Não daquelas botas normalizadas que a Suzana encomendou para a filha. Podem elas ser esbeltas, quentes e capazes de dar ainda mais lustro a um conteúdo já de si bem torneado, mas não deixam de ser uma botas despersonalizadas, feitas na China, por grosso e por atacado. As minhas, não, eram botas feitas para atender às particularidades e design específico do conteúdo que iriam servir. As minhas, eu via-as o Sr. Manuel Sapateiro fazê-las!...
Já era inverno, chovia e fazia frio, não o frio “amaricado” de Lisboa, mas um frio autêntico, gélido e beirão, e a minha mãe decidiu que eu precisava de botas novas para ir para a escola sem correr grandes riscos de molhar os pés e aparecer constipado. E foi comigo ao Sr. Manuel, o melhor sapateiro da terra, que calçava toda a família. Mas o Sr. Manuel decidiu que eu não precisava de botas, precisava sim era de uns sapatos fortes para o inverno, porque as botas, depois de um jeito que lhes daria e as punha como novas, ainda chegariam à primavera ou até mais. Não podia era jogar à bola…
Com tal garantia, a minha mãe mandou então fazer uns sapatos. Descalçada a bota velha que iria ser como nova graças ao Sr. Manuel, colocado o pé direito numa folha de papel branco, e o Sr. Manuel lá o ia rodeando com um lápis de forma a obter a planta rigorosa do dito, incluindo as reinterâncias dos dedos. Depois, media meticulosamente a altura do peito do pé, em três sítios, junto ao início da tíbia, no meio e junto aos dedos. De posse do desenho e das medidas, procurava a forma que melhor se ajustava ao desenho. E lá escolhia a forma apropriada, porém tão esburacada que até metia dó, devido aos pequenos pregos que usava para ajustar as "gáspeas" ao molde quando as cozia à sola ou à borracha. Tirava depois os pregos, soltava o sapato da forma e procedia ao acabamento. Este meu profundo conhecimento da arte da sapataria adquiri-o porque todos os sábados era encarregado de levar os sapatos lá de casa para engraxar. Perante tão bom cliente, Sr. Manuel encarregava logo o irmão, o Sr. João Sapateiro, ou um dos empregadotes novos que por lá estagiavam, de logo proceder à engraxadoria, porque o Toninho, que era eu, não podia esperar. E, enquanto esperava, ia dominando os fundamentos e princípos da arte. De forma teórica e abstracta, claro. Era geralmente o Sr. João que se encarregava da graxa. Pegava no sapato e a primeira tarefa consistia, por regra, e antes de a escova actuar, numa cuspidela no cabedal.
Por que é que cospe nuns sapatos e noutros não, Sr. João? Oh, Toninho, então não vê? É para poder melhor tirar a lama… Quando não há lama, não cuspo. É que assim a tinta e a graxa pegam melhor…
Claro que fui logo aprendendo à minha custa a escolher o lugar estratégico do estabelecimento onde me deveria colocar e proteger, não fosse o Sr. João adivinhar alguma lama na camisola e nas calças e limpá-las a preceito.
Bom, mas perdi-me na confecção dos meus sapatos, e tenho que terminar por agora. Continuarei em próximos capítulos, não sem antes descrever as notáveis particularidades do Sr. Manuel também como jornalista. Autêntico, e não como muitos sapateiros de notícias que há por aí...

F. Times de 3/XII - Notável artigo de opinião "em português"

1.A edição do F. Times de 3 do corrente inseriu um artigo da autoria de José Maria Brandão de Brito, quadro superior do BCP, intitulado “New rules on liquidity culd do more harm than good”.
2.Não me recordo de ter lido neste jornal um artigo de opinião de autor português…acrescentando a esse dado o facto de se tratar de um artigo de elevada qualidade, em minha opinião, entendi que era mais do que justificado deixar-lhe uma referência especial, embora breve (não dispensa a leitura do mesmo) neste nosso espaço de comentário.
3.No essencial o Autor põe em causa os fundamentos de uma medida que conheceu a primeira aplicação no Reino Unido em Outubro último, por iniciativa da Financial Services Authority e que visa reforçar a liquidez dos bancos em geral, obrigando-os a investir parte significativa das suas disponibilidades em dívida pública (“high-quality government bonds”), criando uma almofada de liquidez para utilizar em tempos de eventual crise…
4.Brandão de Brito chama a atenção para diversos problemas que esta nova regulamentação coloca, nomeadamente se a sua aplicação alastrar à generalidade dos outros países - o que parece muito provável dado que goza do apoio do Committee of European Banking Supervisors.
5.Entre outras consequências, estas novas regras deverão afectar os resultados e a capacidade dos bancos concederem crédito às empresas, uma vez que terão que consignar uma parte importante das disponibilidades – B. Brito refere um montante da ordem de 10% do total dos activos – à aquisição de dívida pública. Os bancos terão assim que conceder menos crédito à economia e esse crédito será tendencialmente mais caro para compensar a perda de rentabilidade com juros muito inferiores pagos pela dívida pública adquirida “à força”.
6.Outra consequência será o efeito redutor no custo das dívidas públicas consideradas de “high-quality” – a dívida grega não deixará por certo de figurar neste quadro de honra – incentivando ainda mais as práticas despesistas dos governos dos países emitentes…e desincentivando os esforços de consolidação orçamental que têm sido apontados como essenciais no médio prazo pelo menos.
7.Estas regras podem ainda vir a ter efeitos perversos em caso de uma futura crise de liquidez…nesse eventual cenário, os bancos tenderão a precipitar-se na venda desses activos “high-quality”, criando uma situação de excesso de oferta e de ausência de compradores, reduzindo consideravelmente o valor de mercado dessa dívida e a sua liquidez…
8.Brandão de Brito comenta, a este propósito, que a liquidez de um activo não é uma qualidade estática, aquilo que hoje é muito líquido pode vir a tornar-se um “mono” se as circunstâncias do mercado se modificarem…estaria a pensar, sem o dizer abertamente, nas dívidas grega e quejandas?
9.Em suma, um artigo de opinião muito actual e de qualidade – devo esclarecer que não conheço o Autor - perfilhando ideias que se afiguram sensatas e a merecerem especial atenção…embora me pareça que os reguladores, na sua estratégia característica de “casa assaltada trancas à porta” bem pouca atenção irão dar a estes avisos, até um dia…

A importância da "fracção"...

Assim vai o ensino secundário. E o universitário também…
Ouvi há pouco no programa Plano\nclinado, dedicado ao tema da Educação, o que já se sabia: os alunos que chegam à universidade para frequentarem cursos que exigem matemática não estão devidamente preparados.
Foi dito que não têm a noção do que é uma “fracção”! É uma constatação pouco animadora. Há excepções. Mas a regra levou o Professor João Duque a apresentar este caso para mostrar o “estado da arte”.
Mas, então o que é uma fracção? Será assim tão difícil a resposta? Não. A fracção é o resultado da divisão de um número em partes iguais.
Desculpem-me o atrevimento, mas vou dar um exemplo:
O Joãozinho e o Zezinho dividiram um chocolate. O Joãozinho comeu 2/3 e o Zezinho comeu 1/3. Quer dizer que o chocolate foi dividido em três partes iguais, o Joãozinho comeu duas partes e o Zezinho comeu uma parte.
É claro que o desconhecimento do conceito de fracção é facilmente resolvido, bastando para tal a utilização de uma máquina de calcular. Depois tudo acontece de forma automatizada, como que num passo de magia: primeiro carrega-se na tecla 2, de seguida carrega-se na tecla do sinal de divisão e por fim carrega-se na tecla 3. E já está.
Os alunos não conhecem o conceito de fracção, mas conhecem a máquina de calcular. Os alunos dependem dela e o ensino dela abusa.
Com uma tal (de)formação de base em aspectos tão básicos da aritmética/matemática, como podem os alunos estar preparados para mais tarde raciocinar em relação a coisas simples que fazem parte do dia-a-dia? É que a matemática é fundamental para o desenvolvimento do raciocínio. E se o raciocínio é necessário para a resolução de problemas de matemática, é também útil em muitas outras áreas do conhecimento e da nossa vida!

sábado, 5 de Dezembro de 2009

Pensar a sociedade

Os franceses são um povo que sempre admirei, mesmo se considerados fora de moda e em declínio, porque a verdade é que souberam manter o culto do pensamento e da reflexão, esse gosto esquecido pela filosofia, pelo sentido da História e pelo estudo da razão de ser das coisas. O Governo francês constituiu um Conselho para Análise da Sociedade (CAS), presidido por Luc Ferry, filósofo e antigo Ministro da Educação, com a missão de “pensar a sociedade e esclarecer as escolhas e as decisões do governo quanto aos efeitos sociais”. Esse Conselho, composto por universitários, cientistas, artistas e representantes da sociedade civil de várias sensibilidades políticas nos domínios das humanidades, publica regularmente uma colecção de cadernos intitulados "Pensar a Sociedade" onde analisa as várias questões que hoje estão no centro dos debates, e esses textos, muito simples e claros de modo a que a maioria dos cidadãos possa entendê-los, estão associados a propostas concretas de iniciativas políticas a adoptar.
O relatório de Maio, da autoria de Luc Ferry, intitulado“Face à la crise – Materiaux pour une politique de civilisation”, defende que a crise actual não deve ser atribuida ao sector financeiro, que é apenas uma expressão da crise, mas antes que foi a economia real que deu origem à crise financeira e em seguida à crise de confiança que se reflectiu por sua vez na economia real.
Segundo o autor, a primeira globalização começou há vários séculos com a revolução científica que culminou no século XVIII com o Iluminismo e que iria permitir que a ciência moderna aproveitasse a todos e conduzisse o mundo ao desenvolvimento, à felicidade e ao progresso. Esse ideal seria alcançado através da acção política que daria um sentido à História, no caminho da humanismo, da democracia, da igualdade, com um papel fundamental do acesso à educação e ao conhecimento.
No entanto, esse objectivo transcendental sofreu uma grave ruptura com a segunda gloalização, a do séc. XX, com os mercados financeiros e as tecnologias de comunicação a determinarem uma competição feroz e generalizada, cada vez mais desprovida de sentido e de direcção. Esta lógica competitiva não admite escolha ou possibilidade de resistir, é um imperativo absoluto de sobrevivência das empresas e dos consumidores. Quem não inova em permanência, quem não se adapta consumindo o que é posto no mercado, desaparece ou fica excluído, por muito absurdo que seja o produto ou inútil no que acrescenta ao bem estar. É a “mercantilização do mundo” e o abandono dos valores que conferiam algum sentido humano ao progresso, o sentido da felicidade dos povos. “Já ninguém sabe onde nos leva um mundo mecanicamente engendrado pela concorrência e que escapa à vontade consciente dos homens dotados de uma aspiração comum”.
Neste contexto vertiginoso, a política é quase irrelevante, as ideologias são impotentes e as consequências culturais e sociais são tão impressionantes que "é impossível enfrentá-las (...) Este é um século de inovação e de tábua rasa, de mudança e de desconstrução de valores, como o das autoridades tradicionais, num grau absolutamente inédito na história dos homens, gerando um sentimento de “perda de referências” invocado pelas gerações mais velhas”.
É nesta gigantesca sociedade de consumidores que procuramos, desesperados, encontrar espaço para novos valores que nos orientem ou nos agarramos, como náufragos, aos escassos vestígios dos que aprendemos a respeitar. Porque, na ausência de um sentido para as coisas, cada um de nós não é mais do que um autómato de consumo, capturado pelo marketing e reduzido a um egoísmo estéril e deprimente.

Mais do mesmo

Há quatro anos, no rescaldo do XV congresso da ANMP, escrevi esta nota. Caiu hoje o pano sobre o congresso que marca o novo ciclo autárquico. Escreveria agora, no essencial, coisa diferente?

O caminho do insustentável


Assisti a alguns flashes da sessão de ontem no Parlamento. Distintamente do que ouço alguns comentar, penso que, apesar de violento, o assim chamado debate parlamentar com o PM não foi de uma violência inusitada. Na anterior sessão legislativa já tinham existido momentos de enorme crispação. Agora, porém, a diferença impõe-se. O Governo apresenta-se frágil nos argumentos e fraco nas convicções (a prestação do Ministro das Finanças na AR, há dias, foi tão surpreendente quanto confrangedora...). Está claramente consciente da sua fragilidade e revela-se incapaz de encontrar as alianças que lhe permitam resistir. Do lado das oposições, a futura e próxima discussão do OE ditará se o PS lança pontes à direita ou à esquerda, ou se continuará a tentar equilíbrios instáveis que são garantia de coisa nenhuma.

Uma coisa é certa. As oposições já testaram o Governo e perceberam que nem a liderança da bancada parlamentar do PS, nem os ministros de perfil mais político (Lação, Vieira da Silva e Santos Silva) revelam habilidade suficiente para desagravar os conflitos. Bem pelo contrário. Os restantes estão calados, o que se apresenta como uma inegável vantagem atendendo, por exemplo, à episódica intervenção do Ministro das Obras Públicas no lamentável e quase patético caso do chumbo das PPP rodoviárias pelo Tribunal de Contas.

Com o PSD apostado numa estratégia de oposição agressiva, não se vêem condições para que a solução política encontrada no actual quadro parlamentar se afigure durável, salvo se, com este mesmo quadro, a próxima liderança social-democrata entenda viável a reconstituição do bloco central. Não sendo isso previsível (e ainda que a gravidade da situação do País devesse fazer com que se pensasse numa solução política de estabilidade governativa) a pré-campanha para as presidenciais que está aí, irá inevitavelmente acentuar o clima de crispação. A prenunciar um caminho insustentável para o actual governo. Mas, sobretudo, a recomendar uma mudança nos principais protagonistas. Para que o essencial não fique na mesma...

sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Porfiámos e conseguimos!

A pedido de várias famílias de seguidores do 4R, divulgamos aqui a foto inédita das botas que percorreram dois continentes inteirinhos até à casa da nossa ilustre Suzana Toscano. Não foi fácil, mas após uma cansativa perseguição adoptando meios sofisticados de intercepção, conseguimos revelar em primeira mão aquilo que corria o risco de ser um segredo mais seguro do que o segredo da justiça.

Chegaram!

A todos os que ficaram curiosos do meu êxito como estreante de compras no espaço cibernético, anuncio que chegaram as botas! São lindas -admitindo que umas botas preparadas para ir ao pólo norte possam ser bonitas...! Aqui fica o registo da aventura, no tracking que fui acompanhando ao longo destes dias emocionantes:

Your item was delivered(PORTUGUESE REPUBLIC) at 2009-12-02 15:50:00
Signed for by:M

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2009-11-23 15:06:00 TIANJIN Posting
2009-11-23 15:41:58 TIANJIN Arrival at Sorting Center
2009-11-23 17:04:11 TIANJIN Despatch from Sorting
Center
2009-11-23 19:35:00 TIANJIN Despatch from Sorting
Center
2009-11-24 13:46:47 BEIJING Arrival at Sorting Center
2009-11-24 15:12:08 BEIJING Despatch from Sorting
Center
2009-11-30 04:32:00 PORTUGUESE REPUBLIC LISBOA
EMS Arrival at Sorting Center
2009-11-30 04:32:00 PORTUGUESE REPUBLIC LISBOA
EMS Handed over to Customs
2009-11-30 12:19:00 PORTUGUESE REPUBLIC LISBOA
EMS Released from Customs
2009-12-02 15:50:00 PORTUGUESE REPUBLIC Delivery
continue track: Verification Code
© China

O boi da câmara

Muito tempo antes de ter deixado de usar calções, brincava eu um dia em frente da casa do meu avô, junto ao sapateiro e ao talho, quando, de repente, ouvi uma agitação dos diabos na rua que desemboca na ponte da praça. – Fujam! Fujam! É o boi! É o boi! Mas eu não via nada. Ouvia apenas os avisos e gritos muito agudos das mulheres, até que, de repente, um barulho diferente do habitual começou a impor-se por si. Na curva logo a seguir à barbearia do Zé do Rego apareceu o boi da câmara numa correria louca bufando que nem um desalmado. Fiquei aterrorizado. O pão com manteiga caiu no chão. – Tenho que fugir. Podia ter-me enfiado na loja do sapateiro, cuja porta estava a uns escassos três metros, mas para isso tinha que correr em direção à fera. Como não tinha idade e nem vocação para forcado optei por correr por uma rua íngreme que vai dar ao Rossio na esperança de que a besta continuasse na sua marcha desenfreada em direção ao Balcão. Mas o bicho, ao ver-me, deverá ter pensado que seria um bom alvo para descarregar a sua agressividade. E não é que muda de direção! Faz uma perpendicular sem derrapar e persegue-me furiosamente. Valeu-me a casa da Senhora Aurora que tinha a porta aberta e pela qual entrei esbaforido parando no andar superior onde costumava ir comprar as boroas para a minha avó a vinte e cinco tostões a unidade. O coração batia tanto que até parecia saltar pela boca. Não consegui dizer nada à Senhora Aurora que, muito surpreendida, olhava para mim, pensando na falta de maneiras de um menino bem comportado que, habitualmente, chamava-a à entrada. Sem dizer nada, e tendo dado conta de que algo de anormal se estava a passar, saiu, voltando passado algum tempo. Eu ainda estava meio aterrorizado quando a ouvi dizer: - O menino já pode ir para casa, o boi anda no Rossio. E assim foi, sem dizer uma única palavra desci as escadas, saí para a rua e olhei para o lado esquerdo pensando: - Se o boi anda no Rossio, então, pode muito bem voltar para trás e apanhar-me. Enchi-me de coragem e corri que nem um doido até entrar no portão da casa do meu avô. Fechei-o bem, e nesse dia não mais voltei a sair.
O boi era mesmo agressivo. Era o boi da câmara. Agora não sei se a sua agressividade era inata ou se era adquirida. Às tantas devia ser da responsabilidade de ambas. O desgraçado do animal tinha que puxar a carroça da carne do matadouro até ao talho. Acredito que não devia ser fácil ver e ouvir os seus irmãos a serem massacrados e depois transportar os seus restos para alimentar a cáfila dos humanos. Passou-se. E eu, sem ter qualquer culpa no cartório, ia pagando as favas.
Sabe-se que a agressividade animal é devida a fatores genéticos que começam a ser desvendados. É possível separar e desenvolver espécies em função da sua agressividade inata. Estudos que começaram há mais de cinquenta anos com raposas prateadas e, mais recentemente, com ratos permitiram aos cientistas criar animais ultra domesticados a ratos ferocíssimos que chegam a atacar sem qualquer receio um ser humano. Outros, mais dóceis, deixam fazer tudo e até procuram os seres humanos. E estamos a falar de ratos! Tudo indica que os genes responsáveis pela agressividade serão basicamente semelhantes nas diversas espécies. O controlo dos mesmos, ou a seleção de animais sem os ditos, poderia ser uma forma de domesticar muitos animais selvagens contribuindo para evitar a sua extinção. Assim, um dia, teríamos manadas de búfalos selvagens a seguir-nos docilmente, e, até, poderíamos correr o risco de nos lamberem com as suas línguas rugosas ou fazerem-nos festas com as suas caudas, ou, então, passarmos a ter tigres ou leões como animais domésticos a enrolarem-se ao redor das nossas pernas ou a quererem sentar-se ao colo, o que não seria muito aconselhável. Procurar conhecer a genética da agressividade, na expectativa de podermos vir a domesticar muitos animais selvagens, constitui um sinal de má consciência face ao contributo que temos dado para o seu desaparecimento. Mas talvez possam ser úteis as descobertas que começam a ser produzidas. No caso dos humanos, e face à “selvajaria” que muitos expressam nos seus comportamentos, uma inativação de alguns genes poderia ser muito interessante. E em vez de andarmos a querer domesticar os animais selvagens, o melhor seria centrar a atenção na “domesticação” de alguns seres humanos que, afinal, acabam por ser muito mais agressivos e perigosos do que o boi da câmara.

Retórica das bananas


As frequentes reuniões com Hugo Chavez e a participação nas Conferências Ibero-Americanas têm dado a Sócrates a sofisticação que as suas já naturais qualidades políticas justificavam.

E têm-lhe permitido subir degraus a uma velocidade porventura impensável.

Hoje, no Parlamento, a retórica de Sócrates está a desafiar o patamar dos mais insignes líderes sul americanos. Com uma cor e um tom de que eles nunca suspeitariam.

Portanto, que se cuidem, e venham aprender como se faz!...

Títulos extraordinários

"PAPA APRESSA TERREIRO DO PAÇO" - edição on line do SOL

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Não vale a pena complicar...

A propósito da corrupção, foi mais ou menos isto que há pouco ouvi do Professor Diogo Leite de Campos em resposta à pergunta "como se combate a corrupção" (SIC Notícias):

A prevenção da corrupção faz-se com a eficácia da justiça. A dissuasão de actividades de corrupção é dada pela resposta imediata e punitiva do Estado.
É preferível rapidamente condenar um corrupto com dois anos de prisão do que aguardar dez anos nos corredores da justiça para aplicar cinco anos.


Totalmente de acordo. Não é com mais comissões parlamentares - com todo o respeito que me merecem e por melhores que sejam as intenções - nem é com mais produção legislativa - com todo o respeito que me merecem os senhores legisladores - que vamos resolver o problema da corrupção. Enquanto a justiça não funcionar este flagelo irá continuar a desgastar o Estado de Direito.

Um lamentável ZERO de respostas e de esclarecimentos

Ontem, durante a prestação de contas na Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças, por ocasião da apresentação do segundo Orçamento Rectificativo de 2009, o Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos… não prestou contas nenhumas.

Na verdade, o Ministro foi questionado (eu estou incluído no rol de perguntadores) sobre quais as estimativas do Governo para

- O défice público;

- A dívida pública;

- O crescimento do PIB, do consumo privado, do investimento e das exportações;

- A evolução do emprego e do desemprego;

- A inflação;

- O défice externo.

Tudo para 2009 – o ano que está a acabar. E isto porque, acredite-se ou não, no relatório que acompanha o OR, nenhum destes elementos constava…

Pois a verdade é que, mostrando uma total falta de respeito para com o Parlamento e a população em geral, o Ministro adiantou… ZERO!... Conversa redonda, muita; dados concretos… nada!...

Mas alguém acredita que, a menos de um mês do final do ano, Teixeira dos Santos não tenha estimativas para todas aquelas grandezas?... É claro que ninguém acredita… o que nos leva à pergunta seguinte: por que razão não quis o Ministro partilhar aquela informação publicamente?... Por que razão a guarda só para si, como se de uma preciosidade se tratasse?...

Aceitam-se sugestões para tão lamentável postura…

Bombista homicida

Para defender as escutas como “espionagem política”, o PS invocou que Manuela Ferreira Leite, ao dizer que Sócrates mentiu quando disse desconhecer o negócio da TVI, conhecia o teor dos telefonemas entre Sócrates e Vara, em que o assunto era mencionado.
"Quando Ferreira Leite disse que o primeiro-ministro mentiu no Parlamento, fiquei admirado. Depois percebi que era isso que estava nas alegadas escutas…”, afirmou ontem o Deputado socialista Ricardo Rodrigues no Parlamento.
Para sustentar a falácia da “ espionagem política”, até serve admitir a própria mentira de Sócrates.
Definitivo argumento de bombista homicida, em que afinal o mais atingido foi quem pretendia defender.

Tenham medo, tenham muito medo...

Brevíssima nota sobre a cegueira


Enquanto o FMI põe termo às últimas ilusões sobre o que nos espera num futuro mais próximo, no Parlamento deu-se íncio ao campeonato da moralidade pública desta legislatura. A disputa da Taça do Maior Inimigo da Corrupção ocupará os senhores deputados por longas sessões de proclamações políticas e laborioso trabalho em comissão onde se inventarão novos crimes, novos processos, novos meios, para que, na próxima legislatura, não nos falte campeonato...

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Depois do DUBAI, a Grécia?

1.Em interessante artigo publicado na edição do F. Times de 30 de Novembro, um dos seus habituais articulistas, Wolfgang Munchau, coloca a interrogação citada em título: será a Grécia o próximo caso de “quase-default”, a exemplo do que acaba de se passar com o DUBAI?
2.A situação financeira da Grécia, membro desde 2000 da zona Euro, apresenta com efeito aspectos muito preocupantes: um défice orçamental em 2009 que poderá chegar a 13% do PIB, dívida pública a caminho de 135% do PIB, dívida externa bruta – pública + privada – da ordem de 150% do PIB em final de 2008.
3.A agravar esse cenário, uma apreciação real da taxa de câmbio de 17% desde 2006, sugerindo uma perda de competitividade a ritmo assustador, contribuindo para uma sucessão de défices externos superiores a 10% do PIB por ano.
4.A questão orçamental da Grécia adquiriu novos contornos após mudança de governo, há cerca de 2 meses - até então a Grécia reportava ao Eurostat um défice em trono de 4% do PIB…e, de repente, o novo governo descobre que o défice não era esse, mas mais do triplo desse…
5.Munchau sustenta que a União Europeia não estará disposta a dar o seu apoio às finanças gregas, aplicando a regra do “no bail-out” consagrada em Maastricht, preferindo que a Grécia entre em “default” a criar um precedente pouco honroso de dispensar apoio a um membro do Euro manifestamente relaxado.
6.Para que a EU se dispusesse a apoiar a Grécia, seria necessária a aplicação de um programa tipo FMI (que nós conhecemos bem em 76/77 e em 83/84), envolvendo a adopção de drásticas medidas de austeridade…coisa que, segundo Munchau, o novo governo grego não parece disponível para assumir, até porque concluiu há pouco tempo uma campanha eleitoral em que prometeu exactamente o oposto da austeridade...
7.Para já, o novo governo grego parece apostar numa redução do défice em 2010 de cerca de 13% para pouco menos de 10% do PIB…mas ao que parece à custa do que chama “combate à evasão fiscal”- onde é que já ouvimos isto?.
Medidas de redução da despesa não estarão previstas ou serão irrelevantes, pelo que o objectivo em causa corre sério risco de incumprimento.
8.Munchau ironiza dizendo que “o combate à evasão fiscal é sempre o primeiro item na lista de acções dos governos em desespero financeiro”…e que certamente vamos assistir a uma enorme pressão dos dirigentes europeus sobre a Grécia e o seu governo no sentido de esquecer as promessas eleitorais e enfrentar o “monstro” orçamental com drásticas medidas de redução da despesa.
9.Um belo exemplo de como a qualidade de membro do Euro é susceptível de funcionar como incentivo ao laxismo financeiro, ano após ano, na convicção de que o endividamento externo pode crescer indefinidamente…como se o facto de a dívida ser denominada na moeda comum a tornasse, como por magia, inexigível…
10.Um caso a seguir com a maior atenção…nos próximos meses e anos, reforçando a oportunidade de uma séria reflexão em torno dos nossos próprios problemas financeiros e económicos…bem vistas as coisas, não estamos a anos-luz da Grécia, pois não?…

Haja Deus, Senhor Ministro!...

Teixeira dos Santos é um manancial de pitorescas contradições. Na mesma hora, no mesmo minuto. Lamentável é que seja Ministro. Repare-se nestas duas afirmações de hoje na Assembleia da República.
Afirmação 1- Apresentar um orçamento rectificativo antes desta data “teria sido precipitado, uma vez que na altura a insuficiência ao nível das receitas estatais apontava para uma verba a rondar os três mil milhões de euros, quando actualmente esse montante ascende a 4,5 mil milhões de euros”.
Estas palavras foram ditas em resposta a acusação da Oposição de não ter apresentado em tempo oportuno um orçamento rectificativo devido ao calendário eleitoral

Afirmação 2- "Em Portugal a queda da actividade económica não será tão acentuada como o previsto há cerca de seis meses”.
Isto é: a queda da actividade económica não é tão grande como a prevista, mas a queda das receitas (induzida pela queda da actividade económica menos acentuada do que o previsto) é maior do que a prevista!...
Haja Deus!...

Diego

Na passada semana uma menina espanhola de três anos morreu devido a uma queda ocorrida dias antes num parque. Na altura foi vista pelos médicos que não detetaram razões para suspeitar tão trágico desfecho. Acontece, infelizmente. Dois dias depois, quando o namorado da mãe lhe dava banho, a menina desmaiou. Diego levou-a de imediato às urgências. Foi reanimada várias vezes. O médico interpretou as lesões da pele como sendo queimaduras e “encontrou” lesões nas partes íntimas, tendo ativado de imediato o protocolo de agressão sexual que levou à detenção do namorado da mãe. A partir daqui gerou-se uma sucessão ininterrupta de acontecimentos, envolvendo médicos, juízes, polícias, comunicação social, altas individualidades sociais, cívicas e políticas que não fizeram outra coisa do que atacar o “monstro” que matou a miúda. A comunicação social empenhou-se como é costume nestes casos dando prioridade a mais um caso de violência infantil sem rodeios. Será escusado comentar o que terá pensado a população face ao “criminoso”.
Afinal, Diego está inocente. Os exames médico-legais concluíram que a criança não foi vítima de qualquer tipo de agressão nem tão pouco foi violada e que as tais lesões cutâneas eram meras manifestações de alergia a um creme.
Face à revelação do relatório médico-legal, as entidades que malharam forte e feio em Diego não foram capazes de quaisquer pedidos de desculpa pública ou de retratação. Vieram justificar as suas afirmações de uma forma que considero fria e pouco séria. Os responsáveis da comunicação social são os únicos, até ao momento, a reconhecerem, de forma humilde, o erro, mas, na tentativa de se desculparem, reportam que sempre se tem pautado pelo rigoroso cumprimento das normas, “rebeubéu, pardais ao ninho”.
Este caso é mais do que paradigmático da violação da presunção de inocência. Um ser humano é brutal e impiedosamente condenado na praça pública. Sofre violentamente. Estou convicto que jamais conseguirá recuperar completamente do sofrimento.
Dizem os entendidos que há matéria mais do que suficiente para condenar médicos, jornalistas e quejandos. Mas haverá algum dinheiro que possa compensar uma acusação desta natureza? Não haverá pressa a mais nestes tipos de juízos? Não será preciso mais cuidado por parte de quem transmite as notícias? Claro que poderão invocar que as deram baseadas nas informações prestadas. Mas é suficiente? E quando acontece uma coisa destas, não deveriam pedir publicamente perdão pelo mal que cometeram e que ajudaram a propagar? Não basta apurar as responsabilidades penais dos agentes envolvidos, o que está em causa é muito mais do que isso. É uma questão de dignidade que ao ser violentada nunca mais será totalmente recuperada e que é muito pior do que a própria morte.
Não podemos esquecer que qualquer um pode ser vítima de falsas acusações. Quanto à dita presunção de inocência, tão propalada em inúmeras circunstâncias, não será uma mera figura de retórica atrás da qual se “esconde” abertamente a condenação?
Diego merece que todos os agentes envolvidos, juízes, polícias, médicos, comunicação social, presidentes de várias associações e até a vice-presidente das Canárias peçam publicamente perdão por terem contribuído para a sua condenação. Será que só nos casos em que há muitas vítimas é que se pede perdão publicamente, como temos vindo a testemunhar ultimamente?

Ai Mercúrio, Mercúrio!

Ultimamente tenho sido alvo de telefonemas e interpelações sobre a problemática da vacinação contra a gripe A. Pais preocupados sem saberem o que fazer com os filhos e maridos a perguntarem se acho que vale a pena vacinar as esposas grávidas, para não falar nos demais.
Levantou-se uma suspeição sobre as vacinas afirmando que não foram suficientemente testadas e que há diferentes tipos. Há, de facto, vacinas diferentes no que toca aos adjuvantes utilizados e até há vacinas sem adjuvantes. Em essência nada as distingue a não ser nestes aspetos. Quanto ao facto de não ter havido “tempo” para as testar é uma tese que cai por si mesma, ou seja, hoje, com as novas tecnologias, tornou-se muito mais rápido e fácil produzir vacinas. Aliás, verificou-se uma antecipação às datas previstas, o que é de realçar e louvar. O modo de as produzir em nada difere das vacinas contra a gripe sazonal comum. De qualquer modo instalou-se a dúvida e a desconfiança agravadas pelos comportamentos de alguns profissionais de saúde que não têm qualquer pejo em mostrar os seus receios.
O medo é pior do que a própria gripe e não há máscaras nem desinfetantes para o matar. As mensagens correm o mundo em poucos minutos, através da TV, da internet e dos jornais. Depois, o “boca-a-boca” acaba por fortalecer e alimentar as desconfianças.
Já tive oportunidade de afirmar que o homem não consegue viver sem produzir “medos”. Quando uma ameaça termina é logo substituída por outra. A comunicação social tem o estranho hábito de se escudar no facto de que é apenas o “mensageiro” e, nessa qualidade, não se considera responsável pela propagação dos “medos”. Uma falácia como é fácil de demonstrar.
Surgiram, recentemente, alguns casos de morte fetal tardia em grávidas que tinham sido vacinadas. Aqui d’el-rei, a vacina é um perigo para as grávidas! Alguém tem dúvidas sobre esta conclusão? Claro que não escrevem sob este registo, mas é o que as pessoas leem nas entrelinhas. E mesmo que digam que se trata de uma mera coincidência não conseguem eliminar a dúvida entretanto criada. Nem os vírus informáticos são capazes de tamanhos efeitos negativos. Nestes casos, um bom programa antivírus e com a ajuda de informáticos consegue-se ultrapassar a situação e evitar novos ataques. Mas onde poderemos encontrar “antivírus” para limpar as ideias entretanto criadas nas mentes de tantas pessoas? É quase impossível. Claro que o tempo –sempre o famoso tempo! -, acabará por resolver mais este imbróglio.
Há dias, em conversa com um amigo jornalista que anda preocupado com um filho asmático - não sabia se devia ou não vaciná-lo -, perguntei-lhe se ainda não tinham “encontrado” algum caso de síndrome Guillain-Barré, uma doença neurológica que provoca paralisia na sequência de vários processos, alguns infecciosos, e que pode chegar a provocar a morte. Curiosamente, esta síndrome foi prevalente há pouco mais de trinta anos, nos Estados Unidos, com uma vacina contra uma nova forma de gripe, ao ponto de ser interrompida a vacinação. Atendendo a que esta situação, síndrome de Guillain-Barré, surge todas as semanas, embora em número muito reduzido, basta que a vacinação atinja mais pessoas para que possam ocorrer um ou mais casos em indivíduos já vacinados contra a gripe A. Já estou a ver as aberturas dos telejornais e as primeiras páginas dos periódicos e, como sempre, a zelosa ministra da Saúde a falarem sobre o tema. Quanto aos primeiros as sequelas sociais são fáceis de prever e quanto à ministra, apesar do seu esforço, ao querer repor as coisas na sua ordem natural, não vai conseguir apagar o fogo desencadeado pelos “mensageiros” da comunicação social.
Ai Mercúrio, Mercúrio, estás mesmo a precisar de um valente puxão de orelhas, mas Zeus deve estar velho e cansado, ou, então, entretido, como é seu hábito, a brincar com as suas deusas e belas mortais. O Olimpo já não é o mesmo de outrora...

Tudo ao molho e fé em Deus!...

Vieira da Silva, Ministro da Economia, foi hoje falar ao Parlamento de espionagem política e justiça.
Espera-se que o Ministro da Justiça vá agora ao Parlamento falar de política económica.
E a Ministra da Cultura falar de agricultura.
E exige-se que o Ministro da Administração Interna fale de finanças públicas.
Porque o colega das Finanças é sempre o último a saber onde é que param as modas das contas nacionais...